Inteligência Ecológica: o impacto do que consumimos

India - Koyambedu Market - Faces 17Se soubesse que um dos produtos que mais gosta usa mão-de-obra infantil em seu processo de fabricação, ou que ao obter algumas de suas matérias-primas ocorre a contaminação de águas consumidas por comunidades ribeirinhas, você ainda o compraria? Essa é a pergunta que permeia a narrativa do livro “Inteligência Ecológica – O impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta”, publicado pela Campus.

Escrito por Daniel Goleman, autor de best-sellers como “Inteligência Social” (Campus), “Inteligência Emocional” (Objetiva) e “Trabalhando com a Inteligência Emocional” (Objetiva), o livro nos mostra como os atuais conceitos ligados ao consumo consciente e produção sustentável precisam evoluir para promover as mudanças positivas que o mundo precisa.

Baseado em vários estudos, o livro é um excelente ponto de partida para quem deseja se aprofundar no complexo conceito do consumo consciente. Sendo assim, quero destacar alguns pontos que vão ao encontro do que tenho falado no Dinheirama.

O preço oculto do que compramos
Por mais informações que um rótulo possa ter, ele certamente não apresenta com clareza os impactos ocultos que a fabricação de um produto gera. Alguns podem até destacar aspectos positivos, como o uso de ingredientes orgânicos e naturais. Outros podem informar sobre a geração de carbono ou que o produto é neutro em emissões. Ainda assim, pouco se sabe sobre os impactos produzidos pelos demais elos da cadeia produtiva.

Usando apenas um rótulo como referência, não é possível visualizar as complexas ligações entre os vários atores que tornaram um produto possível. Como exemplo, Daniel Goleman sugere uma reflexão sobre a cadeia produtiva de um molho de tomate. Mesmo que este seja feito com tomates orgânicos, produzidos de forma sustentável e processados conforme normas dos organismos certificadores, ainda temos que considerar o recipiente onde o molho é armazenado.

Se o material for vidro, como podemos saber de onde foi retirada a matéria prima para produzi-lo? Será que foi retirada de forma sustentável (capaz de se manter ao longo do tempo) ou exploratória? Quanto de material reciclado foi utilizado? Qual a distância que o material percorreu até a produção, da produção para a fábrica de molho de tomate e, depois, ao consumidor final?

Como solução para essa questão, Daniel Goleman propõe que o conhecimento sobre os impactos de um produto sejam colocados à disposição do consumidor. Denominada por ele como transparência radical, essa abertura inclui não só os rastros de carbono do produto como também as substâncias que podem ser nocivas ao ser humano, a qualidade das relações de trabalho adotadas na cadeia produtiva, o impacto da matéria-prima no meio ambiente, entre outros.

“Seja você um consumidor, o gerente de compras de uma empresa ou um executivo que gerencia uma marca, se conhecesse os impactos ocultos do que compra, vende ou fabrica com a precisão de um ecologista industrial, poderia moldar um futuro mais positivo, tornando suas decisões mais bem alinhadas com seus valores”

O “verde” nem sempre é o que parece
Hoje encontramos os mais diversos produtos com algum tipo de conceito “verde”, mas a grande maioria apenas usa um ou dois atributos de forma a construir uma imagem “sustentável”, enquanto os demais aspectos são tratados da mesma forma, ou até pior, do que produtos tradicionais. Essa situação é conhecida como “greenwashing”, quando se disfarça os atributos não “verdes” ressaltando os poucos atributos comumente considerados “verdes”.

Para conhecer os reais benefícios de um produto é preciso analisar todo o seu ciclo de vida, desde a matéria-prima até o processamento do resíduo pela natureza. Cada etapa na cadeia produtiva produz impactos no ambiente em que se encontra, sejam na saúde humana, nas relações sociais ou no meio ambiente. Mensurar esses impactos é a única maneira de calcular o impacto resultante da fabricação de qualquer produto. Assim, a transparência radical na comunicação entre produtores a consumidores é fundamental para medir o verdadeiro impacto ecológico do nosso dinheiro.

Ciclo vicioso x ciclo virtuoso
Outro ponto importante ressaltado pelo autor é o estreito relacionamento formado entre empresas e consumidores. Embora existam muitas organizações preocupadas em tornar seus negócios sustentáveis, custo e desempenho ainda são os fatores que pesam no final. Isso não só pela competição de mercado, mas também pela busca em atender às preferências dos consumidores. Nesse aspecto, somos todos vítimas e vilões, influenciadores e influenciados:

“Esse antagonismo entre metas corporativas e o interesse público gera incerteza para os muitos executivos que procuram tanto agradar os acionistas quanto defender os interesses do público. No entanto, a transparência radical une o que antes parecia ser opostos: os interesses da empresa alinham-se aos melhores interesses e valores do consumidor”

Onde encontrar informações sobre os impactos de produtos e empresas?
Ainda são poucos os guias dedicados a relacionar produtos sustentáveis ou classificar o grau de sustentabilidade. dos produtos tradicionais. No livro, encontramos um excelente site de pesquisa americano, o GoodGuide, cujo objetivo é servir como fonte de informações mais completas sobre os impactos de um produto relativos a segurança, saúde e meio ambiente.

Além do GoodGuide, também é possível encontrar boas referências nos guias (clique sobre os nomes para visitá-los):

  • Catalogo Sustentável: criado e atualizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (GVces), relaciona produtos e serviços destacando suas características em relação a matéria-prima, certificações, reciclagem, critérios sustentáveis e outros.
  • Guia de Empresas e Produtos: administrado pelo Instituto Akatu, classifica as empresas de acordo com suas práticas de responsabilidade social.
  • Guia de Eletrônicos Verdes: atualizado pelo Greenpeace, relaciona as várias fabricantes de eletrônicos de acordo com o impacto de seus produtos.

Só o tempo irá dizer…
Não existe nenhuma fórmula mágica capaz de maximizar nosso estilo de vida ao mesmo tempo em que minimizamos, ou eliminamos, os impactos no sistema natural. O que existe são mudanças potenciais inseridas no dia a dia, em nossas escolhas e preferências. Na realidade, a busca pela redução do consumo pessoal e a decisão de consumir com qualidade é, de longe, a melhor atitude que podemos adotar com o propósito de reduzir nossa pegada ecológica.

Créditos pela foto: mckaysavage

Publicado originalmente no Dinheirama.

Para ler outros artigos da autora no Dinheirama clique aqui.

About The Author

Elaine Maria Costa

Elaine Maria Costa é administradora, coach e permacultora, faz compostagem doméstica desde 2009. Em 2013 mudou-se de uma área urbana para morar numa chácara em Embu das Artes – SP com o objetivo de ter maior qualidade de vida, contato com a natureza e sustentabilidade pessoal.